Projetos
Viver e morrer no universo online
Há quase duas décadas venho me dedicando a pesquisar essa nova espécie de vida que estamos construindo e experimentando nesse outro mundo (já não mais tão paralelo) que é o universo digital. Essa é a base dos meus trabalhos de mestrado e de doutorado e de boa parte dos artigos e ensaios que venho escrevendo nos últimos anos. Certamente foi essa pesquisa que me conduziu também à investigação e à prática psicanalítica. Hoje pode parecer até estranho pensar que essa é uma parte da vida que não existia até pouco tempo atrás: como seria possível sobreviver fora ou sem internet?
A morte nos ambientes online também foi se tornando quase natural e fomos desenvolvendo recursos para lidar com ela nesse outro espaço. Mas será que, apesar dessa nossa imensa capacidade de adaptação à essa nova realidade, parar um pouco para estudar e refletir sobre as nossas formas de viver, de morrer e de vivenciar o luto nas redes sociais e em toda uma série de dispositivos conectados à internet não seria algo valioso? Talvez isso possa revelar muito sobre o que sentimos, o que desejamos, o que tememos e como sofremos na contemporaneidade.
O estranhamento e a curiosidade sobre aquilo que já nos parece óbvio e quase natural nessa realidade em que vivemos é fundamental para que possamos nos tornar conscientes sobre o que se passa em nós mesmos e sobre as dinâmicas que acontecem ao nosso redor. O desejo de conhecer e de tentar desvendar os modos de construção de subjetividade e as dores compartilhadas coletivamente que fazem parte tanto das minhas próprias experiências pessoais como também de todos aqueles que me rodeiam, muito especialmente dos adultos e adolescentes que eu atendo em minha clínica, é parte essencial do meu trabalho.

Fotografias e vídeos de família
Dos mais antigos, aos mais recentes. Será que algo de lá do passado ainda se mantém nos registros de família que produzimos e guardamos hoje? Ainda os guardamos ou valorizamos muito mais a troca, o compartilhamento, a publicação disso que ainda nos parece tão precioso? Estudar a história das imagens e dos sons de famílias, de tudo aquilo que é visual e sonoro e que captura um pouco das pessoas que consideramos mais intimas e importantes para nós foi um caminho riquíssimo para refletir sobre o que é família, memória, intimidade, privacidade e subjetividade. Uma abordagem genealógica de tudo isso e a busca de um entendimento sobre a dinâmica entre os espaços privados e públicos tanto na modernidade como agora, somados à investigação sobre as tecnologias de captura, fixação, reprodução e armazenamento desses materiais tão especiais, passando pelos tantos formatos analógicos e pelos digitais, embasaram a escrita da minha dissertação de mestrado intitulada "Entre os baús do passado e as telas do presente", que recebeu a menção honrosa do prêmio Compós de Melhor Dissertação de Comunicação concluída em 2011.

MILF e o fetichismo
“Sim, na psique a mulher continua a ter um pênis, mas este pênis já não é mais o mesmo de antes”.
Sigmund Freud, 1927.
Há algum tempo, no contexto do estudo da perversão, escrevi o ensaio “Um pouco sobre MILF ou ‘a mãe que eu gostaria de comer’: o exercício de ler, escrever e elaborar o fetichismo”. Esse trabalho foi construído com base na leitura e na releitura do texto “O Fetichismo” de Sigmund Freud, escrito em 1927, assim como, de certa maneira, numa espécie de tentativa de re-escrita de trechos dele. Isso no esforço de elaborar melhor o que eu assimilei desse conceito, mesclando o que Freud escreveu com as minhas próprias palavras, como em uma espécie de resumo expandido sobre o fetichismo. Mas para além disso nesse ensaio também me permiti questionar algo aparentemente bastante trivial. A já muito conhecida palavra MILF, um acrônimo formado pelas iniciais da frase em inglês Mother I'd Like to Fuck (mãe com quem eu gostaria de transar, numa tradução um pouco mais polida), sempre me intrigou. Mas o que realmente eu estranhava e estranho sobre ela? O que no modo como essa palavra vem sendo usada, especialmente nos últimos anos, chama a minha atenção? E, finalmente, MILF é, afinal de contas, um fetiche? Com essas e outras interrogações tento fazer uma ponte entre o que compreendi sobre o fetichismo e a ideia de que MILF é um fetiche dos mais populares em nossos dias. Para ajudar numa reflexão sobre isso, escolhi dois textos publicados em sites jornalísticos muito difundidos e reconhecidos aqui no Brasil, uol e globo.com, entre o vasto oceano de referências que podem ser encontradas quando fazemos uma busca na internet digitando a palavra MILF. Essa foi apenas uma primeira aproximação com o assunto, seguindo minha curiosidade e imaginando que este possa ser um caminho de pesquisa a ser melhor desenvolvido em futuros trabalhos.
